terça-feira, 27 de março de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
OS PENDURICALHOS DA MENTIRA
CHICO DE ASSIS
Foi por respeitá-lo assim, em tantos planos das atividades que ainda desenvolve, que me espantei ao vê-lo cometer um erro histórico imperdoável, no artigo intitulado "Nuremberg e a verdade", publicado à pag. E10, da Ilustrada, na Folha de São Paulo de hoje. Referindo-se à Anistia, promulgada em 1979, ainda no governo ditatorial de João Batista Figueiredo (aquele que dizia preferir o "cheiro de cavalos" ao "cheiro de povo"), diz o veterano articulista:
"Foi aceito por ambos os lados o conceito da anistia plena, geral e irrestrita para todos os crimes políticos de determinado período, cometidos em nome da ordem reinante ou em nome da justiça social e econômica, violentada pela mesma ordem então reinante".
De todos os argumentos que ora estão sendo usados para inocentar torturadores - que torturaram, estupraram, assassinaram e fizeram desaparecer centenas de brasileiros, continuando até hoje absolutamente impunes por todos esses crimes -, este é o mais falacioso, por conduzir uma estupenda mentira histórica. A anistia sancionada por Figueiredo foi parcial, mesquinha e restrita. Não houve pacto. Houve imposição. De uma pequena maioria, num Congresso ainda emasculado pela legislação discricionária, associada à truculência habitual dos trogloditas do regime. Aos que estavam do lado dos perseguidos restou apenas se curvar à correlação de forças e aproveitar os elementos de avanço que a medida de qualquer forma representava (porque ninguém seria louco para se recusar a sair da prisão ou a voltar do exílio).
De fato, nós saímos e voltamos. Mas centenas dos nossos companheiros só foram efetivamente anistiados em 1985, em Emenda Constitucional encaminhada pelo então ministro da Justiça, Fernando Lyra, já no governo de José Sarney. Aqui em Pernambuco, ficamos presos depois da anistia de 28 de agosto de 1979: eu, Chico Assis Rocha, Alberto Vinicius Melo do Nascimento, Samuel Firmino de Oliveira, José Calixtrato Cardoso, Luciano de Almeida e Rholine Sonde (os dois últimos, libertados apenas em fevereiro de 1980). Todos saímos, não por força da anistia, mas graças ao instituto jurídico da Liberdade Condicional - que nos manteve monitorados pelo regime, ainda durante vários anos.
Em vista disso, solicito, aos que possam e queiram, que divulguem ao máximo tais informações. Até porque, embora tardiamente, nosso pais se aproxima da hora da verdade. E é crucial, para que ela resplandeça plenamente, que os penduricalhos da mentira - mesmo quando expostos sem má fé, como me parece ter sido o caso de Cony - sejam pronta e energicamente refutados.
quarta-feira, 21 de março de 2012
SIMPLESMENTE BELA!
CHICO DE ASSIS
No princípio Bela
foi um marco de resistência
bandeira desdobrada
ao vento amazônico.
Depois foi um sonho
sobrevoando a cordilheira
e aterrissando em terra firme
para vencer a todos os pesadelos.
Agora é mulher.
Do alto dos seus 40 anos
contempla a paisagem dominada
dentro da qual se faz
cada vez mais
BELA!
terça-feira, 20 de março de 2012
À FLOR DA RAÇA
Chico de Assis
Essa negra angolana
Moçambicana quem sabe?
é só uma negra
cujo ar de espanto não
percebe
que as coisas acontecem
lentamente na esquina do
Rossio
dessa Lisboa multietnica
enquanto esse vinho me
desce.
As coisas acontecem e
florescem
nas entranhas das praças
como aquele casal que de
mãos
teatralmente entrelaçadas
leva-as aos lábios
ou fazem-nas recolher
uma lágrima atordoada:
“Tu estás assim por
conta de ontem?”
- ele diz apoplético
sem ligar à raiva que o
sacode
e a mantém trêmula
para enfim se entregar num
abraço.
Essa negra também não
sabe
que de tão longe venho
para descobrir com ela
e outros dos seus irmãos
encontrados
em sussurros e
conciliábulos
os segredos entrecruzados
da raça
que também são os meus
e os trago recônditos
ah, eu os trago tão vivos
e tão latejantes à flor
da pele
que talvez nunca os possa
contar.
Essa negra enfim não sabe
o quanto me deu
nesse breve contato
e talvez um dia
os dois venhamos a
descobrir
por que fora eu
o único receptáculo
do seu ar atarantado
como o meu.
(em
04 de Abril de 2007, na Praça D. João I, em Lisboa, saboreando o vinho
tinto “Porca de Murça”)
sexta-feira, 16 de março de 2012
REVERSO DA ESPERANÇA
CHICO DE ASSIS
Ilustração de Juliano Dornelles
Perdidas
as lembranças em ruas
mal afamadas
percorrem alvoroçadas
degraus de escadas sujas
mal cheirosas.
As narinas do tempo
aspiram o perfume barato
das mundanas enquanto
o arco-íris do desejo
remete ao corpo imóvel
sobre a cama.
Há muito o que tirar
da cave úmida
franzida entre lençóis
bêbados de esperma
embora veja o nada
agigantado
na porta entreaberta
do sexo pelo sexo
amando no reverso
da esperança.
Ilustração de Juliano Dornelles
Perdidas
as lembranças em ruas
mal afamadas
percorrem alvoroçadas
degraus de escadas sujas
mal cheirosas.
As narinas do tempo
aspiram o perfume barato
das mundanas enquanto
o arco-íris do desejo
remete ao corpo imóvel
sobre a cama.
Há muito o que tirar
da cave úmida
franzida entre lençóis
bêbados de esperma
embora veja o nada
agigantado
na porta entreaberta
do sexo pelo sexo
amando no reverso
da esperança.
sábado, 10 de março de 2012
DO QUARTO AO BANHEIRO
CHICO DE ASSIS
Não vou falar aqui de exagerada auto-estima, mas
desse
amor tão popular que, como a caridade,
começa em casa, na casa do
próprio corpo
- esse campo de batalha sexual onde tive minhas
primeiras vitórias
e nem uma só derrota...
(CABRERA INFANTE)
Heloísa não gosta daquele jeito. Ela pede que a deixe
inverter os papéis, assumir o que para ela era o melhor, porque a
parte que tradicionalmente cabe ao homem, a iniciativa. E assim se
empina sobre seu sexo, amazona imponente cujas mãos firmes puxam
suas barbas, apertam depois seu pescoço e parecem conduzir a voz
metálica, rancorosa, quieto, bem quietinho, se não apanha. Havia
um prazer intenso nessa troca, como se a mudança dos pólos
tradicionais, a perda momentânea de identidade, produzisse um
curto-circuito que estremece todo o corpo, atingindo as entranhas e
produzindo um gozo que se propaga pelos poros e arrepia todos os
pelos, deixa, minha vida, deixa pintar tua boca.
Já com Raquel tudo se passa de forma completamente
diferente. Ela adora ser dominada, da cabeça aos pés. No auge da
excitação, salta-lhe sobre o colo, oferecendo-lhe as nádegas e
apanhando a chinela embaixo da cama, bate, meu coronel, bate na sua
cabritinha. Ele exerce com prazer cada vez maior o papel de algoz,
deixando-se fascinar pelo infinito poder que pressente nas respostas
paulatinas que ela lhe dá, até se deixar prostrar e se dobrar em
prantos, me fode, me fode, como massa disforme, me esculhamba, sem
vontade, me chama de galinha.
(Fora com Raquel que comprovara a polêmica afirmação
de Nelson Rodrigues: toda a mulher gosta de apanhar, no fundo, no
fundo. Raquel gostava literalmente. Talvez porque revivesse alguma
experiência infantil, palmadas no bum-bum, o pai, adorava o pai.
Embora houvesse passado metade de sua vida pensando que ele a
odiasse, pensava que eu não era dele; mãinha, sim, que o fez pensar
isso, por vingança. O certo é que gosta. Mal começam os jogos, ela
pede que ele sente na ponta da cama, debruça o ventre sobre suas
coxas, apanha o chinelo no chão e bate, meu amo, bate, quero ser sua
escrava mais safada. Muitas vezes gozava, sem nenhum outro
estímulo).
O equilíbrio (se é que o termo é adequado à
situação) é vivido com Jaqueline, que aqui aparece por último,
mas é sempre quem inicia a cerimônia, por não apresentar maiores
excentricidades, senão a de aparecer de longo. em seda preta, com
seus anéis, colares e perfumes que ia espalhando no percurso da sala
ao quarto. Prefere fazer tudo em silêncio, falando às vezes com os
olhos, que parecem súplices, ou com as mãos em concha, oferecendo
os peitos enormes e obrigando-o, ele sim, a instigá-la, fala, amor,
diz alguma coisa, enquanto ela se recusa, de olhos fechados, como se
precisasse de concentração absoluta para percorrer o sinuoso
caminho do gozo, que vinha num gemido longo, surdo, gutural.
(Na verdade, havia em Jaqueline dois outros fatores de
atração. Era rica, muito rica, e ele, cara politicamente correto,
experimenta cada encontro com ela como se fosse a classe operária
fodendo a burguesia. O segundo fator era a idade. Cerca de dez anos
mais velha, Jaqueline lhe permite a impressão de que soluciona
através dela todos os seus enigmas edipianos, embora o aborreça
muito a sensação próxima do asco ou o sentimento próximo da culpa
que o acomete, cada vez que acaba de transar com ela).
Ele costuma usufruir lentamente do prazer que cada uma
lhe proporciona, deixando-as expandir, uma de cada vez, todo o
potencial de loucura e sensualidade que indiscutivelmente conduzem.
Raramente junta as três, tanto para evitar possíveis cenas
histéricas, quanto por considerar que isso o desconcentra. Somente
uma vez, quando já dera início ao ritual e Jaqueline o recebera
mais uma vez exuberantemente vestida, sentiu o corpo ofegante de
Heloisa agarrando-o por trás. Ouviu então sua voz segura, você é
meu, não se atreva, e percebeu o desconcerto assustado de Raquel,
encolhida num canto. Inicialmente tímidas, elas se entreolham, se
estudam, se perguntam por que haviam aceito o convite que ele
insistentemente sugerira, até que Heloísa, teria mesmo que ser
ela, roubou com um beijo o riso tímido e nervoso de Raquel, passando
a exercer imediato e despótico poder, que se esvai em carícias e
apertos e beijos, o beijo da mulher é melhor, mais suave, ela diz
para provocá-lo.
Daí em diante, nâo houve mais controle sobre a
ação dos participantes, deixando-se tudo sob o comando exclusivo do
instinto, que ordena a volta aos estímulos primários, ora os
colocando numa pausa de perplexidade, mais realçada no rosto de
Raquel, que tesão, meu Deus, que loucura estamos fazendo, ora os
engalfinhando como bichos numa seqüência meteórica de posições,
não sendo surpreendente assim vê-lo de quatro, com Heloísa
altaneira em pé a sua frente, inebriando-o com o cheiro ativo de
boceta que apenas insinua esfregar-lhe na boca, preferindo em troca
untar-lhe as faces afogueadas do colostro que extrai da massagem com
as mãos, cheira, vagabundo, sente o cheiro da tua rainha, enquanto
Raquel cavalga-lhe as costas, experimentando pela primeira vez o
prazer de comandar e se ver obedecida, anda cavalinho, lambe, beija,
restando Jaqueline, meio ressentida por haver ficado até então um
pouco de lado, estalando um chicote que combina bem com a elegância
do seu corpo e de suas vestes, vocês vão ver agora com quem estão
lidando, para finalizar o cenário que iria ser palco da
promiscuidade de beijos e pernas e bocas que se abrem e se fecham,
conforme seja a sofreguidão desesperada com que sua mão,
freneticamente agarrada ao sexo, leva-o a esvair-se no frenesi
final do gozo e o traz de volta à cama vazia, mal disfarçando uma
ponta de frustração com o riso debochado que o levantou para o
banho purificador do esperma, do suor e da solidão descomunal que
por momentos julgou experimentar, no trajeto do quarto ao banheiro.
quinta-feira, 8 de março de 2012
E SE INDA HOUVER AMOR...
CHICO DE ASSIS
E se inda houver amor eu arderei
na chama que me queima sem doer
na dor que desatina e ninguém sente
no fogo que se alastra e ninguém vê.
E se inda houver amor camoniana adaga
inscrita no meu corpo como espátula
que rasgue em minha carne a última chaga
e faça do meu sangue o meu viver.
E se inda houver amor bem escondido
estiolado em trapos demolido
eu hei de arquitetar seu refazer:
sob o signo dessa luz luciliana
quasar de estrelas míticas refulgentes
sussurrarei palavras de silêncio.
Em Recife, 10 de setembro de 2011.
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