sexta-feira, 16 de março de 2012

REVERSO DA ESPERANÇA

                                                                                     CHICO DE ASSIS


                                                                                  Ilustração de Juliano Dornelles


Perdidas
as lembranças em ruas
mal afamadas
percorrem alvoroçadas
degraus de escadas sujas
mal cheirosas.

                                              As narinas do tempo
                                              aspiram o perfume barato
                                              das mundanas enquanto
                                              o arco-íris do desejo
                                              remete ao corpo imóvel
                                              sobre a cama.

Há muito o que tirar
da cave úmida
franzida entre lençóis
bêbados de esperma
embora veja o nada
agigantado
na porta entreaberta
do sexo pelo sexo
amando no reverso
da esperança.
         

sábado, 10 de março de 2012

DO QUARTO AO BANHEIRO



                                                                                                 CHICO DE ASSIS





Não vou falar aqui de exagerada auto-estima, mas             
desse amor tão popular que, como a caridade, 
começa em casa, na casa do próprio corpo 
- esse campo de batalha sexual onde tive minhas primeiras vitórias
 e nem uma só derrota...
                                      (CABRERA INFANTE)











Heloísa não gosta daquele jeito. Ela pede que a deixe inverter os papéis, assumir o que para ela era o melhor, porque a parte que tradicionalmente cabe ao homem, a iniciativa. E assim se empina sobre seu sexo, amazona imponente cujas mãos firmes puxam suas barbas, apertam depois seu pescoço e parecem conduzir a voz metálica, rancorosa, quieto, bem quietinho, se não apanha. Havia um prazer intenso nessa troca, como se a mudança dos pólos tradicionais, a perda momentânea de identidade, produzisse um curto-circuito que estremece todo o corpo, atingindo as entranhas e produzindo um gozo que se propaga pelos poros e arrepia todos os pelos, deixa, minha vida, deixa pintar tua boca.

Já com Raquel tudo se passa de forma completamente diferente. Ela adora ser dominada, da cabeça aos pés. No auge da excitação, salta-lhe sobre o colo, oferecendo-lhe as nádegas e apanhando a chinela embaixo da cama, bate, meu coronel, bate na sua cabritinha. Ele exerce com prazer cada vez maior o papel de algoz, deixando-se fascinar pelo infinito poder que pressente nas respostas paulatinas que ela lhe dá, até se deixar prostrar e se dobrar em prantos, me fode, me fode, como massa disforme, me esculhamba, sem vontade, me chama de galinha.
(Fora com Raquel que comprovara a polêmica afirmação de Nelson Rodrigues: toda a mulher gosta de apanhar, no fundo, no fundo. Raquel gostava literalmente. Talvez porque revivesse alguma experiência infantil, palmadas no bum-bum, o pai, adorava o pai. Embora houvesse passado metade de sua vida pensando que ele a odiasse, pensava que eu não era dele; mãinha, sim, que o fez pensar isso, por vingança. O certo é que gosta. Mal começam os jogos, ela pede que ele sente na ponta da cama, debruça o ventre sobre suas coxas, apanha o chinelo no chão e bate, meu amo, bate, quero ser sua escrava mais safada. Muitas vezes gozava, sem nenhum outro estímulo).

O equilíbrio (se é que o termo é adequado à situação) é vivido com Jaqueline, que aqui aparece por último, mas é sempre quem inicia a cerimônia, por não apresentar maiores excentricidades, senão a de aparecer de longo. em seda preta, com seus anéis, colares e perfumes que ia espalhando no percurso da sala ao quarto. Prefere fazer tudo em silêncio, falando às vezes com os olhos, que parecem súplices, ou com as mãos em concha, oferecendo os peitos enormes e obrigando-o, ele sim, a instigá-la, fala, amor, diz alguma coisa, enquanto ela se recusa, de olhos fechados, como se precisasse de concentração absoluta para percorrer o sinuoso caminho do gozo, que vinha num gemido longo, surdo, gutural.


(Na verdade, havia em Jaqueline dois outros fatores de atração. Era rica, muito rica, e ele, cara politicamente correto, experimenta cada encontro com ela como se fosse a classe operária fodendo a burguesia. O segundo fator era a idade. Cerca de dez anos mais velha, Jaqueline lhe permite a impressão de que soluciona através dela todos os seus enigmas edipianos, embora o aborreça muito a sensação próxima do asco ou o sentimento próximo da culpa que o acomete, cada vez que acaba de transar com ela).

Ele costuma usufruir lentamente do prazer que cada uma lhe proporciona, deixando-as expandir, uma de cada vez, todo o potencial de loucura e sensualidade que indiscutivelmente conduzem. Raramente junta as três, tanto para evitar possíveis cenas histéricas, quanto por considerar que isso o desconcentra. Somente uma vez, quando já dera início ao ritual e Jaqueline o recebera mais uma vez exuberantemente vestida, sentiu o corpo ofegante de Heloisa agarrando-o por trás. Ouviu então sua voz segura, você é meu, não se atreva, e percebeu o desconcerto assustado de Raquel, encolhida num canto. Inicialmente tímidas, elas se entreolham, se estudam, se perguntam por que haviam aceito o convite que ele insistentemente sugerira, até que Heloísa, teria mesmo que ser ela, roubou com um beijo o riso tímido e nervoso de Raquel, passando a exercer imediato e despótico poder, que se esvai em carícias e apertos e beijos, o beijo da mulher é melhor, mais suave, ela diz para provocá-lo. 
Daí em diante, nâo houve mais controle sobre a ação dos participantes, deixando-se tudo sob o comando exclusivo do instinto, que ordena a volta aos estímulos primários, ora os colocando numa pausa de perplexidade, mais realçada no rosto de Raquel, que tesão, meu Deus, que loucura estamos fazendo, ora os engalfinhando como bichos numa seqüência meteórica de posições, não sendo surpreendente assim vê-lo de quatro, com Heloísa altaneira em pé a sua frente, inebriando-o com o cheiro ativo de boceta que apenas insinua esfregar-lhe na boca, preferindo em troca untar-lhe as faces afogueadas do colostro que extrai da massagem com as mãos, cheira, vagabundo, sente o cheiro da tua rainha, enquanto Raquel cavalga-lhe as costas, experimentando pela primeira vez o prazer de comandar e se ver obedecida, anda cavalinho, lambe, beija, restando Jaqueline, meio ressentida por haver ficado até então um pouco de lado, estalando um chicote que combina bem com a elegância do seu corpo e de suas vestes, vocês vão ver agora com quem estão lidando, para finalizar o cenário que iria ser palco da promiscuidade de beijos e pernas e bocas que se abrem e se fecham, conforme seja a sofreguidão desesperada com que sua mão, freneticamente agarrada ao sexo, leva-o a esvair-se no frenesi final do gozo e o traz de volta à cama vazia, mal disfarçando uma ponta de frustração com o riso debochado que o levantou para o banho purificador do esperma, do suor e da solidão descomunal que por momentos julgou experimentar, no trajeto do quarto ao banheiro.








quinta-feira, 8 de março de 2012

E SE INDA HOUVER AMOR...

                                                                                          CHICO DE ASSIS



E se inda houver amor eu arderei 
na chama que me queima sem doer 
na dor que desatina e ninguém sente 
no fogo que se alastra e ninguém vê.


E se inda houver amor camoniana adaga 
inscrita no meu corpo como espátula 
que rasgue em minha carne a última chaga 
e faça do meu sangue o meu viver.


E se inda houver amor bem escondido 
estiolado em trapos demolido
eu hei de arquitetar seu refazer:

sob o signo dessa luz luciliana 
quasar de estrelas míticas refulgentes 
sussurrarei palavras de silêncio.
                                                                        
                                                                          Em Recife, 10 de setembro de 2011.


A MULHER E A CASA


                                            João Cabral de Melo Neto
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor, somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro
ou será quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas,
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

                                            Em 08 de março de 2012, DIA INTERNACIONAL DA MULHER.

terça-feira, 6 de março de 2012

DO SEXO & DAS CULPAS.


                                                                                    CHICO DE ASSIS


                                                                             Ilustração Juliano Dornelles



O sexo lateja em nossa boca
o beijo proibido dos devassos
e em nosso corpo
a ânsia inconsolável
do promíscuo.

Túmidas intumescências
ocupam o espaço viril
das nossas coxas
invadindo nossas vísceras
ensandecidas na carícia
e na volúpia de grutas
vorazes ninfomaníacas.

O deleite nos abandalha
em múltiplas membranas
levando-nos vulneráveis
ao delírio das orgias libertinas
onde repousam alguns sonhos
e dormem algumas culpas. 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

NO ALTAR DA FORMA


                                                                                       CHICO DE ASSIS


                                                                                Ilustração Juliano Dornelles
Sacrifico meus mitos
meus medos
segredos.
Sacralizo ritos
antigos
imagino gritos
que atravessam
o deserto do texto.

No altar da forma
me ajoelho.
E anoiteço inútil.
E amanheço estéril.  

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Crônicas de Segunda


                                                                                               Chico de Assis


                                                 


                                                               UMA VIDA SEVERINA



              Seu nome é Sujinho. Ninguém sabe por que nem quem o apelidou assim. Dizem que a alcunha foi se fixando, entre os casais que enojados viam-no empurrar o dedo na carne dos cocos que abre para vender. O que se sabe ao certo é que todos os dias, chova ou faça sol, ele sai com sua carrocinha de coco pelas areias da praia de Pau Amarelo. Faz um longo percurso. Falam que do Janga até as mediações da praia de Maria Farinha. Não menos de 6 kms, com certeza.
Sujinho percorre essa distancia, indo e vindo, conversando com o vento.Se alguém um dia quiser fazer um tratado sobre a solidão é só tentar acompanhá-lo em sua inesgotável fabulação com um companheiro imaginário. Ninguém decifra o que ele fala. Nem precisa. Juro que certa vez tentei. Até perceber que aquela era apenas uma forma de se sentir acompanhado. Excluído socialmente, rejeitado pelos circunstantes que apenas o olham passar pela areia da praia, Sujinho ignora a todos, falando um dialeto que só ele entende.
           Certa vez ele se aproximou de mim e de Beta – minha companheira atual e, se Deus quiser, afinal, minha companheira pra sempre. Estávamos sentados numa das inúmeras barracas da praia e ele se aproximou para nos oferecer um coco. Pelo menos foi o que pensamos que ele fazia. Porque ele se limitava a dizer, não vendi nenhum, não vendi nenhum. Por sinal, ninguém efetivamente jamais o viu vendendo um coco sequer. As histórias que circulam, entre os banhistas e comerciantes da praia, é que ele é doido e toda a vez em que alguém tentou abordá-lo para compra recebeu um desaforo ou terminou enrolado em alguma confusão por ele armada. Nós o recebemos divertidos, mas naturalmente dissemos que já havíamos tomado nossa água de coco. Ele resmungou algumas frases em seu dialeto inaudível e tomando distância já nas areias da praia fez com o braço o gesto característico de uma banana.
           De outra feita, procuramos obter informações a seu respeito. De onde vinha, onde morava, se tinha mulher, filhos. Ninguém sabia. É doido, diziam todos. Monocórdios. Hoje Sujinho voltava pela pista. A chuva forte o impedira do trajeto habitual nas areias da praia. Um carro desgovernado o apanhou, levantando-o no ar e destroçando sua carrocinha, dentro da qual não havia nenhum coco. Comentam que há muito era assim: ele conduzia a carroça, ida e volta, apenas para se sentir fazendo alguma coisa. Num acostamento de estrada, Sujinho sumiu. Tão rápido quanto um dia havia surgido.