sexta-feira, 13 de julho de 2012

O AMOR E O OUTRO




                                                                                                    Affonso Romano


           Não amo
                       melhor
            nem pior
            do que ninguém.

            Do meu jeito amo.
            Ora esquisito, ora fogoso,
            às vezes aflito
            ou ensandecido de gozo.
            Já amei
                       até com nojo.

            Coisas fabulosas
            acontecem-me no leito. Nem sempre
            de mim dependem, confesso.
            O corpo do outro
            é que é sempre surpreendente.





















terça-feira, 5 de junho de 2012

EM BUSCA DA JUSTIÇA



ALDIR BLANC


       Não sou historiador nem sociólogo. Não consultei nenhum livro para escrever o texto abaixo. Minha memória esta se movendo como   estilhaços do amado caleidoscópio que perdi, menino, em Vila Isabel. Viva a Comissão da Verdade para que nunca mais coloquem uma grávida nua sobre um tijolo, atingida por jatos d’água, com ameaça: “Se cair vai ser pior”; para que senhoras que fazem seu honrado trabalho não sejam despedaçadas por cartas bombas; para que um covarde que bote a boca de um homem torturado no escapamento  de uma viatura militar não passe por homem de bem onde mora; para que orangotangos que se tornaram políticos asquerosos não babem sua raiva na internet: “Nosso erro foi torturar demais e matar de menos”; para que presos em pânico não sofram ataques de jacarés açulados por antropóides; para que nunca mais teatros e livrarias sejam vandalizados e queimados; para que um estudante de psiquiatria não seja obrigado a passar por sentinelas de baioneta calada para ouvir  um coronel médico dizer que “histeria é preguiça”; para que os brasileiros possam homenagear um autêntico herói nacional, João Cândido, com um monumento, sem que surjam energúmenos prometendo “voltar a explodir tudo se isso apontar para o Colégio Naval”; para que a nossa Força Aérea, que nos deu tanto orgulho na Itália, com seus valentes pilotos de caça, não atire pessoas, como se fossem sacos de lixo, no mar; para que um pai, ao se recusar a cumprir a ordem de manter o caixão lacrado, não se depare com o corpo destruído do filho, jogado lá dentro feito um animal; para que militares honrados não sintam “constrangimento” na busca de Justiça; para que cavalos  ( aqueles de quatro patas, montados por outros) não pisoteiem um garoto com a camisa pegando fogo por estilhaço de bomba, na  Lapa; para que torturadores não recebam como  “prêmio” cargos em embaixada no exterior; para que uma estudante não desmaie num consultório médico ao falar sobre as queimaduras do pai, feitas com tocha de acetileno; para que esquartejadores não substituam Tiradentes por Silvério dos Reis; para  que  inúmeros Pilatos ainda trambicando naquela casa de  tolerância do Planalto vejam que suas mãos  continuam cheias de sangue e excremento; para que nunca mais na vida de um jovem idealista -o queixo firme , olhos faiscantes de revolta, com a expressão  da minha Suburbana no 3X4 que guardo na carteira - seja  ceifada por  encapuzados. Uma delas, quem sabe?, pode chegar a Presidência da Republica e enquadrar a récua de canalhas.


                                                                                            ALDIR BLANC


sexta-feira, 20 de abril de 2012

UM JOGO SEM FIM

                                                                                         CHICO DE ASSIS




Jogar com palavras:
confrontações
                       terminações
                                          ondulações.

O poema brinca saltita
o poeta sofre.

Tudo contido um signo:
que fosse amor e ódio
caos e ordem.  

quarta-feira, 18 de abril de 2012

DA MALDIÇÃO

                                                                  CHICO DE ASSIS






Vem da infância essa falta
de carinho e de consolo
sem guarida do amor
que alucina e é morte
antes da vida.
Assim como é deserto
o corpo
em que se delineia
o manto circunspeto
de um destino.

Vem de bem longe
quem sabe
de regiões tão nebulosas
o grito mais aflito de socorro
a ecoar sobre montanhas
pedregosas
crateras de afeto
que se instalam em círculos
de raízes infecundas
ou sequer se instalam.

Vem dos campos
da solidão intramuros
fagulhas de incestos
e pensamentos interditos
amálgamas de uma fé
já renegada
mas sempre intermitente
nas frestas de um verso.

Se há revolta nos gumes
dessa pedra
são embriões da glória
fátuos clarões
que a presunção entroniza
na falta do saber
que imortaliza.

Se há sonhos se há mitos
a insinuar esperanças
são aluviões a permear
a argila dos proscritos
perdidos nas intempéries do tempo
lodaçal de vaidades embutidas
nas fímbrias do poder
que tiraniza.

sábado, 14 de abril de 2012

SONETO DA UNIÃO








                                                                    “Tijolo por tijolo/num desenho mágico”

                                                                     cá estão quatro anos de relação.


                                                              SONETO DA UNIÃO


                                    (Contraponto intertextual com o “Soneto da Separação”, de Vinicius de Moraes)



Não nem foi tão de repente assim.
Talvez em meu arrevessado canto
não foi do riso que se fez o pranto
e sim do pranto que se fez o riso.

“Um riso franco de varandas”
conforme a lavra de outro mor poeta
fez-se caminho e canteiro de flores
bálsamo de amor desaterrando dores.

Sim não foi tão de repente assim.
Foi muito mais o salto intermitente
nas reentrâncias do passado tempo

que condensado se tornou presente:
abriu veredas para os céus futuros
e entre clarões alicerçou o sempre.

                                                                         (Chico de Assis, em 10 de abril de 2012)

sábado, 7 de abril de 2012

CRÔNICA DE UMA SAUDADE CRÔNICA

                                                                                                  CHICO DE ASSIS







“Você é um filho ruim, um filho ruim” – disse-me o velho em seu delírio, enquanto eu tentava conter seu corpo magro em minhas mãos, para impedir-lhe de levantar em meio a noite, uma rara noite em que não suportei ficar acordado e o encontrei quase de pé, descendo do leito do hospital público onde estava internado, recuperando-se de uma parada cardíaca. Era a segunda noite que passava a seu lado naquele hospital (antes se encontrava em hospital particular, com assistência completa, mas valendo os olhos da cara e o médico amigo que o havia atendido na situação de emergência dissera-me convicto, vocês vão ficar só de cuecas, para cobrir as despesas e provavelmente não vão conseguir, se ele ficar por aqui para o período de recuperação, que imagino no mínimo de vinte dias). Sugeriu então que o transferíssemos para um da rede pública, onde ele cuidaria de garantir-lhe o essencial e o essencial incluía acompanhamento para as noites. Por ser o único da família em condições de fazê-lo, já que as irmãs, casadas, com filho ou marido para cuidar, não dispunham de tempo naquele horário, eu ali estava, depois de um cochilo que não consegui evitar, acalmando o velho aos poucos, calma papai, calma papai, é para o seu bem, até vê-lo acalmar-se de fato e quase sem forças balbuciar ainda, um filho ruim, antes que a enfermeira chegasse e o pusesse de volta a cama, para uma lavagem, é o que está incomodando-o, o intestino funciona lentamente e ele se enche de gases, é normal, vamos cuidar disso.

Eu voltei ao beliche onde antes me encontrava, emocionado com o incidente, recriminando-me por não haver conseguido evitar a sonolência, e pensando no que faz essa aproximação, ditada inicialmente pelo sangue e depois pelo convívio, seja qual seja, sendo o meu com o velho marcado por altos e baixos, eu deveria dizer baixos e altos, porque haveria de assinalar duas etapas bem distintas, a primeira compreendida no período de infância e adolescência, quando ele era apenas uma sombra severa, que não se mexia em manifestações de carinho e apenas acompanhava o que julgava essencial acompanhar, como vão os estudos dele? passou de ano? por que vive sempre na rua?

A segunda fase, na idade adulta, quando foi uma rocha de paciência e solidariedade, acompanhando-me em todos os percalços da longa prisão política a que fui submetido e esse acompanhamento implicava participação em rituais que o enchiam de vergonha, como a submissão às revistas impostas para que pudesse entrar como visita. Ele aceitava resignado o que lhe parecia uma humilhação, ele um homem de bem, fiel cumpridor dos seus deveres, sendo apalpado pelos esbirros policiais, que com o tempo foram até compreendendo a inutilidade da tarefa, aquele velhinho tão cordial não merecia tratamento tão extemporâneo e o foram deixando incólume, o senhor fica ai no quarto alguns minutos, depois sai, não vamos mais revistá-lo. Suportaria tudo, contanto pudesse usufruir das horas permitidas ao lado do filho, embora não conseguissem os dois expressar em palavras o que estivessem sentindo e se limitassem a lacônicos comentários, e a vida como vai?, ele perguntava, bem, bem, eu respondia, estamos começando a arrumá-la, mas aqui há tempo pra tudo.   

ÚLTIMO DESEJO

                                                                                             CHICO DE ASSIS





Se há de haver alguma
seja alvirrubra a bandeira
que me cubra e me conduza
à última morada.

Não quero pompas
nem choro nem vela.
Apenas a cor rubra da guerra
que pelejei sem ganhar
e o alvo manto da paz
que enfim ganhei!