sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

UMA TRAGÉDIA EM TRÊS ATOS.


                                                                                   Chico de Assis

Prisão I

Flutua do poema
o desvario:
a sede de viver
intensitura
complicada de tecer.                                        

Repousa no poema
a violência:
o uivo de um gemido
intrasitivo.

Registro em meu poema
a impotência:
insana incompetência
de conter o morto
vivo.


Prisão II
Os olhos sem brilho
arqueiam as sobrancelhas
ou espelham sonolência.

Os dentes sem presas
não mordem a carne
das coisas.
                                                                 
A vida entre-olhos
entre-dentes
entre-parênteses.


O Torturado

Nos olhos de medo
desfilam os amigos.
A História à espreita
num vão de janela.

Minha mente passeia
sobre grutas companheiras
que induzem à confiança.
                                                                                                                                                      

Mas o meu corpo é um verme
sem muletas e habita
regiões desconhecidas
donde a humanidade foi repelida.

Tento inutilmente
alcançar a harmonia
das formas ou a ordem
cósmica das coisas.
Tudo se tece
em horas de coragem
lúcida ou se abate
num desespero/minuto.

A dor guarnece os limites
da cidade heróica
com os subúrbios
da vilania.  

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MONÓLOGO DE CONSOLAÇÃO


                                                                                         CHICO DE ASSIS





Chora não companheiro
que o pranto
resolve nada!


Os mortos continuam mortos
a vida continua vida
o riso sem graça.

Ouves as palmas?
Parecem insensíveis
mas são frutos da impotência.

Olha: a dor não é nova.
Trouxemo-la de longe
reclusa no peito.

A caminhada é longa e antiga.
Tantos anos tivemos
os pés movediços na areia.

Nada vai mudar agora
chorar as cruzes
só porque visiveis na estrada.

Recolhe então tuas lágrimas.
Serão mais úteis na alegria
do anúncio do dia.

Mas só te encontrarás no teu tempo
de punhos e dentes cerrados
esmurrando paredes. 


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O AMOR E OS MITOS





           Sob o ventre do crepúsculo, cruzamos as mãos e abrimos os olhos às flutuações da matéria corporal. Embalados ao vento, rendidos ao encanto de majestáticas catedrais, abandonamos o plano horizontal de nossas vidas, por outro vertical e acidentado, que nos transportaria à nova horizontalidade: a plenitude enevoada dos mitos.
             O amor nos parecia o parto de uma ternura granítica, recendendo à rocha onde sentamos a fadiga dos corpos. Crateras de afeto fixavam-se às pedras, através das quais impulsionamos o jogo de pernas em desamparo, casualmente transformadas em instrumentos do sexo.
     Naquele tempo, jamais pressuporíamos a diluição futura, prenunciada apenas no reflexo murmurejante, sobre nossos sentidos, das água de um mar distante. 



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MAGIA MADRILENA

                                                                     CHICO DE ASSIS




Chove em Madrid
e eu me recolho a mim
como num quarto de hotel
fecho os pontos nos is
da minha vida.
O sonho comunista acabou.
Transfigurou-se em pesadelo
ou em estertores da Historia.

A mística cidadã desvaneceu-se.
Perdeu-se no sem rumo
refém de um sistema
que a envilece.
Os amores sabem todos
ao amargo porque pactuados
nos limites da cidade erótica
com os escaninhos do desamor.

O trabalho não mobiliza
e se coisifica
na rotina do inútil.
Resta uma esperança:
porque chove em Madrid
e a noite de chuva madrilena
deu por encanto ao velho militante
a luz da manhã e uma energia de criança.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ANÚNCIO DO NOVO

                                                                         CHICO DE ASSIS


Ficou para trás
o mofo dos anos.
Rompeu-se enfim
a malha de desencantos
território de utopias
avalanche de desenganos
rolando na esperança
do sonho renovado.

Agora é partir
e viver sem limites
tangenciando a morte.
Agora é amar
sem pudor sem guarida
nas cercanias da posse.
Agora é morrer
e sorrir pela vida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

MAREMOTO





O AMOR SE EMBRIAGOU NA PRAIA
E ROLOU GROGUE NA AREIA.

DEPOIS, O MAR ENTROU DE RESSACA.

                                                                                  CHICO DE ASSIS
                                                                                           




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ODE AOS 60 ANOS

                                                         










                                                   
                                                                                                       Chico de Assis


Chegar aos 60 anos
é ouvir repicar os sinos
de tempos ainda meninos
em auroras ancestrais.

É ver o mundo e de frente
com a rapidez de um grito
divisar no infinito
o que ficou para trás.

É crer no que nunca dizem
é ser sem ser sem raízes
sem amor sem dor
sem limites.