quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MONÓLOGO DE CONSOLAÇÃO


                                                                                         CHICO DE ASSIS





Chora não companheiro
que o pranto
resolve nada!


Os mortos continuam mortos
a vida continua vida
o riso sem graça.

Ouves as palmas?
Parecem insensíveis
mas são frutos da impotência.

Olha: a dor não é nova.
Trouxemo-la de longe
reclusa no peito.

A caminhada é longa e antiga.
Tantos anos tivemos
os pés movediços na areia.

Nada vai mudar agora
chorar as cruzes
só porque visiveis na estrada.

Recolhe então tuas lágrimas.
Serão mais úteis na alegria
do anúncio do dia.

Mas só te encontrarás no teu tempo
de punhos e dentes cerrados
esmurrando paredes. 


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O AMOR E OS MITOS





           Sob o ventre do crepúsculo, cruzamos as mãos e abrimos os olhos às flutuações da matéria corporal. Embalados ao vento, rendidos ao encanto de majestáticas catedrais, abandonamos o plano horizontal de nossas vidas, por outro vertical e acidentado, que nos transportaria à nova horizontalidade: a plenitude enevoada dos mitos.
             O amor nos parecia o parto de uma ternura granítica, recendendo à rocha onde sentamos a fadiga dos corpos. Crateras de afeto fixavam-se às pedras, através das quais impulsionamos o jogo de pernas em desamparo, casualmente transformadas em instrumentos do sexo.
     Naquele tempo, jamais pressuporíamos a diluição futura, prenunciada apenas no reflexo murmurejante, sobre nossos sentidos, das água de um mar distante. 



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MAGIA MADRILENA

                                                                     CHICO DE ASSIS




Chove em Madrid
e eu me recolho a mim
como num quarto de hotel
fecho os pontos nos is
da minha vida.
O sonho comunista acabou.
Transfigurou-se em pesadelo
ou em estertores da Historia.

A mística cidadã desvaneceu-se.
Perdeu-se no sem rumo
refém de um sistema
que a envilece.
Os amores sabem todos
ao amargo porque pactuados
nos limites da cidade erótica
com os escaninhos do desamor.

O trabalho não mobiliza
e se coisifica
na rotina do inútil.
Resta uma esperança:
porque chove em Madrid
e a noite de chuva madrilena
deu por encanto ao velho militante
a luz da manhã e uma energia de criança.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ANÚNCIO DO NOVO

                                                                         CHICO DE ASSIS


Ficou para trás
o mofo dos anos.
Rompeu-se enfim
a malha de desencantos
território de utopias
avalanche de desenganos
rolando na esperança
do sonho renovado.

Agora é partir
e viver sem limites
tangenciando a morte.
Agora é amar
sem pudor sem guarida
nas cercanias da posse.
Agora é morrer
e sorrir pela vida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

MAREMOTO





O AMOR SE EMBRIAGOU NA PRAIA
E ROLOU GROGUE NA AREIA.

DEPOIS, O MAR ENTROU DE RESSACA.

                                                                                  CHICO DE ASSIS
                                                                                           




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ODE AOS 60 ANOS

                                                         










                                                   
                                                                                                       Chico de Assis


Chegar aos 60 anos
é ouvir repicar os sinos
de tempos ainda meninos
em auroras ancestrais.

É ver o mundo e de frente
com a rapidez de um grito
divisar no infinito
o que ficou para trás.

É crer no que nunca dizem
é ser sem ser sem raízes
sem amor sem dor
sem limites.



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CANUDOS DESPEDAÇADO



                                                       Chico de Assis

Esse chão
onde Canudos ceifou
a semente messiânica
da liberdade plantada
em transe guerreiro
da angústia coletiva
dos homens do Conselheiro.

Chão de um povo
em guerra secular
pelos frutos da terra
em que se plantando
tudo dá.

Fascínio de uma luta
em que se imbricam
o ódio – que assassina
o amor – que ressuscita.

E lavra em sua sanha
um código de honra
vetor do sangue
envelhecido no peito.

A honra alicerça a casa
e põe firmeza no braço
família coesa em ódio
vingança traçada em pacto.

A honra alimenta a saga
do circo retesa a corda
ao devassar o azul
trapézio da descoberta.

A honra refaz o ciclo
da morte e resplandece
no amor – alvitre do sonho
no mar – limite da vida.

                                                  (poema-combinação das sensações experimentadas vendo dois                     
filmes: Abril Despedaçado e Gerra de Canudos)